Mentirosos, da Prime Video: bom ou perigoso?

Por Dany Lederman Estava procurando alguma série nova para assistir e encontrei “Mentirosos” (We Were Liars) na Prime Video. Confesso que, julgando pela capa, parecia mesmo uma daquelas séries adolescentes cheias de segredos. Mas a abertura me deixou curioso. Então comecei a assistir, ainda meio incrédulo, mas comecei.
Romance e gente rica vivendo em uma ilha paradisíaca. Tem tudo isso. Mas a série, baseada no livro de E. Lockhart, vai um pouco além. Tanto para o lado bom quanto para o lado que me incomodou.
Uma família rica, uma ilha e muitos segredos
A história de Mentirosos da Prime Video acompanha Cadence Sinclair, uma adolescente de uma família americana muito rica que passa os verões em Beechwood, a ilha particular do avô. Depois de um acidente, ela perde parte da memória e volta ao lugar tentando entender o que aconteceu. O problema é que ninguém parece disposto a contar a verdade.
E é aí que a série começa a ficar interessante. Os Sinclair têm dinheiro, casas enormes, férias perfeitas e uma família que, por fora, parece quase saída de um catálogo. Por dentro, existe uma disputa silenciosa por dinheiro, poder, aprovação e herança. Os adolescentes percebem isso aos poucos e começam a questionar um mundo que, até então, parecia natural para eles.
A crítica internacional percebeu justamente essa camada em Mentirosos da Prime Video. A Variety chamou a série de uma trama envolvente sobre família, privilégio e consequências, enquanto o TheWrap destacou a mistura de mistério adolescente com os segredos de uma família rica. Já o The A.V. Club considerou que a produção aborda ideias maiores, mas às vezes se perde em subtramas.
Afinal, o que aconteceu com Cadence?
Para mim, o mais interessante em Mentirosos da Prime Video está em como a narrativa vai reconstruindo a memória de Cadence. Ela sabe que alguma coisa aconteceu, mas não consegue entender exatamente o que foi.
Então, cada conversa, cada lembrança e cada silêncio ganha importância. A série brinca o tempo todo com aquilo que lembramos, aquilo que esquecemos e, principalmente, aquilo que os outros querem que a gente acredite.
E, nesse ponto, o suspense funciona muito bem. A série consegue fazer com que a gente queira entender o que aconteceu e vá juntando as peças junto com a protagonista.
Uma ilha paradisíaca que esconde alguma coisa
Também gostei da atmosfera. Beechwood parece um lugar perfeito, mas existe uma sensação constante de que alguma coisa está errada.
O verão, o mar, as festas e a casa enorme criam um contraste interessante com as tensões familiares. É bonito de assistir, mas existe sempre alguma coisa escondida por trás daquela paisagem.
E talvez seja justamente essa contradição que faça “Mentirosos” funcionar. Não estamos apenas tentando descobrir o que aconteceu com Cadence. Estamos acompanhando uma garota perceber que os contos de fadas que ela idealizava são muito mais complicados do que imaginava.
O suspense da Prime funciona. O desfecho me incomodou.
Aqui faço uma ressalva ao que escrevi antes: não acho que o problema da série esteja no suspense. Pelo contrário. É justamente a construção do mistério que me fez continuar assistindo.
A questão está no que a história faz com a revelação.
Em determinado momento, a personagem toma uma decisão extremamente grave, com consequências irreversíveis, acreditando estar fazendo o que era certo. E isso levanta uma questão interessante: até onde uma boa intenção pode ser usada para justificar um ato errado?
Afinal, vilões também costumam acreditar que estão agindo como heróis. O problema não está em mostrar uma personagem que pensa dessa maneira. Está em como a narrativa escolhe tratar essa decisão.
Na minha leitura, “Mentirosos” acaba romantizando a escolha. A justificativa emocional é construída de uma maneira tão forte que, em alguns momentos, parece pedir ao espectador não apenas que compreenda a personagem, mas que aceite e perdoe o que ela fez.
E são coisas diferentes.
Uma história pode mostrar a lógica de uma personagem sem transformar essa lógica em absolvição. Talvez essa fosse uma oportunidade para o roteiro explorar melhor a diferença entre compreender uma escolha e considerá-la correta.
Essa questão me incomodou ainda mais por se tratar de uma produção que conversa também com o público jovem. Uma coisa é mostrar que alguém acredita estar fazendo o bem. Outra é conduzir a história de uma forma que pode suavizar a gravidade das consequências.
Para mim, essa é uma das questões mais incoerentes da série e uma das que mais me incomodaram na maneira como o desfecho foi conduzido.
Vale a pena assistir Mentirosos da Prime Video?
A série tem oito episódios e está disponível no Prime Video.
Eu recomendo assistir sem pesquisar nada antes. Até por isso, não trouxe quase nada sobre a história aqui. “Mentirosos” é daquelas séries em que saber demais pode estragar justamente a experiência de descobrir, junto com a protagonista, o que realmente aconteceu.
O suspense me surpreendeu. A forma como a série conduziu o desfecho, nem tanto.
Assista e volte para me contar o que achou.
SOBRE DANY LEDERMAN
Dany Lederman escreve sobre São Paulo, cafés, gastronomia, viagens, cultura urbana, finanças, filmes, livros, carros, jogos, lifestyle e comportamento contemporâneo.




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