A história do Halloween: das fogueiras celtas às fantasias (e 3 países que comemoram de um jeito bem diferente)

Se você acha que o Halloween sempre foi sobre abóboras, doces e fantasias, está enganado. Mais uma vez, tudo começou com os celtas e as estações. Chamado de Samhain, o Halloween era um festival celta que marcava o fim de colheita celebrado na Irlanda, na Escócia e na Ilha de Man há cerca de dois mil anos. Os celtas acreditavam que nesta data a barreira entre vivos e mortos ficava fina o bastante para ser atravessada.
O que é o Halloween
O Halloween é uma festa celebrada na noite de 31 de outubro, véspera do Dia de Todos os Santos, que nasceu do festival celta Samhain e ganhou a forma atual nos Estados Unidos entre o fim do século 19 e meados do século 20. O nome vem de All Hallows’ Eve, “véspera de todos os santos” em inglês antigo, que encurtou para Hallowe’en. No Brasil a data virou Dia das Bruxas, apelido que não existe no inglês.
Samhain: o ano novo que começava no escuro
Para os celtas, o ano virava em 1º de novembro. O calendário girava em torno do gado e da colheita: os rebanhos desciam das pastagens, parte dos animais era abatida para garantir carne no inverno e o campo era abandonado ao frio. Samhain, que em irlandês antigo significa mais ou menos “fim do verão”, marcava essa virada. Por ser uma data de passagem,, entendia-se que as regras de separação entre os mundos relaxavam: os mortos voltavam para visitar as casas onde tinham vivido.
As fontes irlandesas e escocesas registram três práticas que explicam quase tudo que veio depois:
Fogueiras comunitárias. O fogo de cada casa era apagado e reaceso a partir de uma única chama sagrada.
Disfarces. As pessoas saíam vestidas com peles e cabeças de animais, para se proteger dos espíritos ou passar por um deles.
Oferendas na porta. Comida e bebida ficavam do lado de fora para os mortos que passassem.
Roma, a Igreja e a mudança de data do Halloween
Com a dominação romana, dois festivais entraram na mistura: a Feralia, dedicada aos mortos, e a festa de Pomona, deusa das árvores frutíferas, cujo símbolo era a maçã, que até hoje aparece nas brincadeiras da data. A mudança decisiva veio depois: o Dia de Todos os Santos era celebrado em 13 de maio até que o papa Gregório III, no século 8, o fixou em 1º de novembro. Por volta do ano 1000, 2 de novembro virou o Dia de Finados. Ficaram três dias seguidos dedicados aos mortos, e a véspera de 31 de outubro era All Hallows’ Eve. Historiadores ainda discutem se a Igreja escolheu a data para cobrir o Samhain ou se a coincidência foi menos estratégica do que parece.
Da Irlanda para os Estados Unidos
O Halloween atravessou o Atlântico na bagagem dos imigrantes. Entre 1845 e 1852, a praga da batata destruiu a principal lavoura da Irlanda, e mais de um milhão de irlandeses chegaram aos Estados Unidos levando os costumes de Samhain. Três coisas mudaram de forma na travessia.
A lanterna de Samhain era feita de nabo escavado, com uma brasa dentro, e vem da lenda de Jack, o Avarento, que enganou o diabo, foi recusado no céu e no inferno e ficou vagando com a brasa na mão. Nos Estados Unidos havia abóbora nativa, grande e fácil de talhar: o vegetal mudou, a história ficou. O pedido de doces veio do souling inglês, em que pobres batiam de porta em porta pedindo bolinhos e rezavam pelos mortos da família, e do guising escocês, em que crianças fantasiadas se apresentavam antes de receber moeda ou comida. E o registro impresso mais antigo conhecido de trick or treat é de 1927, num jornal de Blackie, no Canadá.
O resultado dessa engenharia comercial se reflete nos números de hoje. A National Retail Federation projeta 13,5 bilhões de dólares em gastos com Halloween nos Estados Unidos em 2026, acima do recorde de 13,1 bilhões do ano anterior, com fantasias liderando a conta. Foi essa versão, a americana e comercial, que o resto do mundo importou pelo cinema. Inclusive o Brasil.
Linha do tempo do Halloween
Quando | O que aconteceu |
Há cerca de 2.000 anos | Os celtas celebram Samhain entre 31 de outubro e 1º de novembro |
Século 8 | O papa Gregório III fixa o Dia de Todos os Santos em 1º de novembro |
Por volta do ano 1000 | A Igreja institui o Dia de Finados em 2 de novembro |
Séculos 15 e 16 | Ficam registrados o souling inglês e o guising escocês |
1845 a 1852 | A Grande Fome leva mais de um milhão de irlandeses aos Estados Unidos |
1927 | Primeiro registro impresso da expressão trick or treat, no Canadá |
Anos 1950 | O pedido de doces vira hábito nacional nos subúrbios americanos |
Anos 1980 | Cinema e TV exportam a data para a Europa, a Ásia e a América Latina |

Três países que comemoram o Halloween de um jeito bem diferente
Filipinas. Em 1º e 2 de novembro acontece o Undas, e milhões de pessoas viajam para passar o dia no cemitério da família. Estendem esteiras, levam comida e caixa de som, e algumas dormem ali. Em Sagada, as famílias acendem fogueiras ao lado das lápides para aquecer as almas que vieram visitar. E em zonas rurais sobrevive o pangangaluluwa: grupos vestidos de branco batem de porta em porta se apresentando como almas do purgatório e cantam pedindo esmola, porque os portões do céu podem fechar antes que eles cheguem. É o souling medieval europeu, vivo e cantado em tagalo, enquanto os Estados Unidos o transformavam em indústria de doce embalado.
Japão. Ninguém bate na porta do vizinho pedindo doce, porque a ideia soa constrangedora. O país importou só a fantasia. A data entrou pelo comércio no fim dos anos 1990, com o desfile da Tokyo Disneyland e a Kawasaki Halloween Parade, e virou cultura de rua depois: o cruzamento de Shibuya passou a atrair dezenas de milhares de pessoas fantasiadas, sem organizador nem permissão. Em 2018, um grupo virou uma caminhonete, e a cidade perdeu a paciência. Hoje beber álcool na rua em Shibuya é proibido o ano inteiro, das 18h às 5h, a estátua do Hachiko é cercada com tapume em 31 de outubro e o bairro pede que os turistas comemorem em outro lugar.
Romênia. Todo fim de outubro, turistas desembarcam na Transilvânia para uma festa à fantasia no Castelo de Bran, vendido como o castelo do Drácula. Bram Stoker era irlandês e nunca pisou na Romênia. A noite assustadora de verdade do calendário romeno cai um mês depois, entre 29 e 30 de novembro, véspera de Santo André: é a Noaptea Strigoilor, quando os mortos sem descanso saem das sepulturas. A defesa é alho esfregado nos batentes das portas, nos caixilhos das janelas, na chaminé e nos portões do curral, com uma cruz desenhada na mão das crianças. O país vende ao mundo um vampiro escrito por um estrangeiro e guarda para si uma noite muito mais antiga.
Perguntas frequentes sobre o Halloween
Qual é a origem do Halloween?Vem do Samhain, festival celta de fim de colheita celebrado há cerca de dois mil anos na Irlanda, na Escócia e na Ilha de Man, entre 31 de outubro e 1º de novembro.
Por que a abóbora é o símbolo do Halloween?A lanterna original era de nabo, na Irlanda. Imigrantes irlandeses nos Estados Unidos trocaram o nabo pela abóbora, que era nativa, maior e mais fácil de escavar.
Por que no Brasil se chama Dia das Bruxas?O nome é uma criação brasileira, sem equivalente em inglês. As bruxas nunca foram o elemento central do Samhain nem do Halloween americano.
Halloween e Día de Muertos são a mesma coisa?Não. O Día de Muertos acontece em 1º e 2 de novembro, tem raízes mesoamericanas somadas ao catolicismo espanhol e celebra o reencontro com os mortos, não o susto.
Me conta, qual você toparia participar? Ou nenhuma?








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