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22 de setembro: quando a primavera começava com festas, sementes e cidades sem carros

Foto do escritor: Dany Lederman
Dany Lederman
há 20 minutos
4 min de leitura

Há algo curioso no dia 22 de setembro. Em 2026, a data marca o início oficial da primavera no Hemisfério Sul e também o Dia Mundial sem Carro. Duas comemorações que parecem pertencer a universos completamente diferentes, mas que têm uma coisa em comum: a relação das pessoas com o espaço em que vivem.


A primavera começa oficialmente no Brasil às 21h05 de 22 de setembro de 2026, no momento do equinócio. É quando o Sol cruza o equador celeste e, aproximadamente, dia e noite têm a mesma duração. A partir daí, os dias começam a ficar progressivamente mais longos no Hemisfério Sul.


Hoje, costumamos tratar a chegada da primavera apenas como uma mudança de calendário. Para muitas sociedades antigas, porém, a mudança das estações era um acontecimento muito mais importante. Era motivo para festas, rituais, refeições coletivas, limpeza das casas, plantio e celebrações relacionadas à fertilidade e ao renascimento da natureza.


Quando a primavera era motivo de festa


Um dos exemplos mais conhecidos é o Nowruz, celebração tradicional associada ao início da primavera e ao Ano Novo em diversas regiões que fizeram parte do antigo mundo persa. A tradição tem pelo menos dois mil anos e continua sendo celebrada atualmente em vários países da Ásia e do Oriente Médio.


O nome significa “novo dia”. A chegada da primavera era acompanhada por uma série de costumes, entre eles a limpeza das casas, o uso de roupas novas, reuniões familiares, música, comida e rituais envolvendo fogo e água. As sementes germinadas também têm um papel simbólico importante, representando a renovação da vida. A UNESCO reconhece o Nowruz como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.


Há algo especialmente interessante nessa tradição: a limpeza de primavera que hoje parece uma mania contemporânea de organização doméstica tem raízes muito antigas. No Irã, por exemplo, a limpeza da casa antes do Nowruz, conhecida como khāne tekāni, continua fazendo parte dos preparativos para a celebração.


Na antiga Mesopotâmia também existiam grandes festivais ligados ao calendário agrícola. O Akitu, associado aos sumérios e posteriormente celebrado em diferentes cidades mesopotâmicas, está entre os mais antigos festivais conhecidos. Em algumas comunidades, as cerimônias aconteciam na primavera e estavam relacionadas à agricultura, à fertilidade da terra e à renovação da ordem social.


No mundo romano, a chegada da primavera também aparecia em celebrações religiosas. O festival de Cibele, incluía procissões, música, banquetes e rituais relacionados ao plantio das culturas. Um dos momentos da festa era chamado Hilaria, associado à alegria e à celebração.


Os detalhes mudavam de uma cultura para outra, mas a ideia se repetia: quando a natureza mudava, as pessoas também mudavam seus rituais.


O que ficou para trás?


Muita coisa.


Durante séculos, a passagem das estações organizou a vida de comunidades inteiras. O calendário agrícola determinava quando plantar, colher e armazenar alimentos. O clima influenciava viagens, comércio e festas. O nascer e o pôr do sol definiam boa parte da rotina.


Também existiam cidades em que boa parte da vida acontecia literalmente na rua. Pessoas caminhavam, comerciantes ocupavam espaços públicos, crianças brincavam, animais circulavam e o transporte tinha uma escala muito diferente da atual.


É curioso pensar nisso no dia em que se comemora o Dia Mundial sem Carro.


A data surgiu na França, em 1997, como uma iniciativa para estimular a reflexão sobre o uso excessivo dos automóveis e experimentar outras formas de deslocamento. No Brasil, a comemoração começou em 2003 e passou a ser associada à mobilidade ativa, especialmente ao uso de bicicletas e às caminhadas.


A proposta não precisa ser interpretada como uma volta ao passado. Afinal, as cidades atuais são enormes, as distâncias são outras e milhões de pessoas dependem de diferentes meios de transporte para trabalhar, estudar e viver.


Mas existe uma pergunta interessante por trás da data: o que acontece com uma cidade quando as pessoas conseguem ocupar seus espaços sem precisar estar sempre dentro de um carro?


Talvez seja justamente aí que as duas datas de 22 de setembro se encontrem.


A primavera fala de renovação. O Dia Mundial sem Carro fala de repensar a maneira como nos deslocamos. E ambos nos lembram de algo que parecia óbvio para quem vivia antes das grandes cidades motorizadas: o espaço urbano também pode ser lugar de encontro.


Primavera, equinócio e um antigo desejo de recomeçar


É claro que a primavera de hoje não começa porque flores desabrocham, as árvores mudam ou porque o calendário decidiu que chegou a hora. Astronomicamente, ela começa em um instante muito preciso, determinado pela posição da Terra em relação ao Sol.


Mas talvez seja justamente essa precisão que torne a tradição tão interessante.


Há milhares de anos, diferentes povos observaram o céu, perceberam mudanças na duração dos dias, acompanharam as estações e criaram maneiras de marcar a passagem do tempo. Alguns desses costumes desapareceram. Outros foram transformados. E alguns continuam vivos.


No fim, a chegada da primavera ainda carrega uma ideia bastante antiga: a possibilidade de começar outra vez.


E talvez seja uma boa maneira de olhar para o dia 22 de setembro. Não apenas como a data em que muda uma estação ou como o dia em que somos convidados a deixar o carro em casa, mas como uma pequena lembrança de que cidades, hábitos e até a nossa relação com o tempo podem mudar.


 
 
 

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